Em uma rara entrevista à BBC de 1968, J.R.R. Tolkien, o criador de “O Hobbit”, fez uma confissão surpreendente: se um mago como Gandalf tivesse aparecido em sua infância, ele teria se esquivado da aventura. “Eu não tinha o menor desejo de me colocar em uma posição estranha apenas para ter uma aventura”, disse o autor, revelando um lado mais cauteloso e introspectivo do escritor que muitos conhecem por suas narrativas épicas. Essa entrevista, que ficou esquecida por décadas nos arquivos da emissora, foi finalmente resgatada para um programa de rádio em 2019, oferecendo uma visão mais íntima do homem por trás dos personagens lendários.
A primeira edição de “O Hobbit” foi lançada em 21 de setembro de 1937, data que agora é celebrada anualmente como a “Semana Tolkien”. Na conversa, Tolkien rememorou uma experiência marcante em sua juventude, uma caminhada pelas montanhas da Suíça que inspirou a jornada de Bilbo Bolseiro. “Cruzamos muitos desfiladeiros, escapamos da morte por pouco em várias ocasiões”, compartilhou, enfatizando que, embora sua narrativa fosse fictícia, ela continha elementos de suas próprias vivências.
Além de falar sobre suas aventuras, Tolkien também explorou sua paixão por idiomas, que começou na época em que estudava clássicos na Universidade de Oxford. Intrigado pelo finlandês, ele se perdeu em sua sonoridade, o que, segundo ele, influenciou a criação das línguas da Terra Média. “Ele tem uma base finlandesa, misturada com outras influências”, explicou, revelando como essa curiosidade acadêmica moldou sua ficção.
A entrevista também trouxe à tona a complexidade de Gollum, um dos personagens mais intrigantes de suas obras. Tolkien descreveu Gollum como “um exemplo de corrupção” e refletiu sobre a luta interna entre seu eu maligno e sua essência mais pura, Sméagol. A cena em que Gollum tenta se redimir ao lado de Frodo, interrompida pela intervenção de Sam, foi destacada como um momento trágico que exemplifica a visão de Tolkien sobre a moralidade: o bem pode, inadvertidamente, causar mal.
As revelações de Tolkien não apenas humanizam o autor, mas também oferecem uma nova perspectiva sobre as nuances de suas histórias. A moralidade em suas obras é complexa e muitas vezes ambígua, desafiando a visão simplista de um mundo dividido entre o bem e o mal. “Na realidade, não é assim”, concluiu Tolkien, reforçando que seus escritos são, em última análise, um reflexo da complexidade da vida. Essa entrevista, agora acessível ao público, ilumina ainda mais o legado de um dos maiores escritores de fantasia de todos os tempos.
Crédito da imagem: O escritor J.R.R. Tolkien



