A campanha eleitoral de 2026 trouxe à tona um uso inesperado do funk por parte de candidatos da direita, que se valem do gênero para conectar-se com o público jovem e ganhar visibilidade nas redes sociais. No entanto, essa estratégia não foi bem recebida por todos e levantou questões sobre a autenticidade e a coerência das mensagens transmitidas.
Figuras como Eduarda Campopiano, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Flávio Bolsonaro foram vistos em atos públicos animados por jingles de funk, que ganharam destaque nas plataformas de streaming. No último domingo, seis das músicas mais populares do Spotify eram adaptações que exaltavam o candidato do PL ou criticavam Luiz Inácio Lula da Silva. Essas canções, que se tornaram verdadeiros hinos nas campanhas, incluíam versos provocativos, como “Quem ficar parado é petista disfarçado”, incentivando a participação dos jovens nas manifestações.
No entanto, a aproximação entre a direita e o funk não se concretizou da mesma forma que em 2024. A utilização do gênero musical pelos candidatos contradiz discursos anteriores que associavam o funk a uma suposta “narcocultura”, um conceito que critica a estética e os valores ligados ao tráfico de drogas. Quando questionados sobre essa aparente hipocrisia, os políticos defendem que suas críticas não se aplicam ao gênero em si, mas sim a certas letras e à cultura das festas de rua.
Um exemplo marcante dessa dualidade é Lucas Pavanato, que celebrou sua eleição à Câmara dos Deputados com funk, mas também foi relator da CPI dos Pancadões, que investigou festas clandestinas. Em sua conclusão, Pavanato argumentou que esses eventos promovem a “normalização da narcocultura”, revelando uma clara contradição em sua postura.
Desde sua ascensão nos anos 2010, o funk se manteve apolítico, mas a polarização nas eleições de 2018 e 2022 dividiu o apoio dos MCs. Enquanto em 2022 muitos artistas se alinharam a Lula, nas eleições seguintes, uma parte considerável mudou de lado, apoiando candidatos de direita, como Pablo Marçal, o que gerou reações adversas de outros funkeiros e do público em geral.
Essa divisão no cenário do funk reflete uma resistência à instrumentalização do gênero para fins políticos, mesmo que isso não impeça sua utilização nas campanhas. Para os políticos de direita, é uma questão de liberdade criativa, mas a rejeição de muitos funkeiros em relação a essa estratégia demonstra que o funk, por mais que seja utilizado nas campanhas, continua sendo um espaço de expressão cultural que não pode ser facilmente dominado ou apropriado.
Crédito da imagem: Funk de camapnha do Flávio viralizou entre os jovens



